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Tubarão é o exemplo claro de como transformar o pesadelo em um sucesso

Hoje, Tubarão (Jaws no original) é um clássico aclamado. Foi graças a esse filme que o termo blockbuster tomou forma, e Steven Spielberg virou o percursor desse cenário. Tudo é maravilhoso com o tempo. Porém, mas do que agraciado pela crítica, Tubarão é um exemplar de como o inferno pode se abater nas gravações de algum longa metragem, série ou similares. Nos anos de 1974, quando o filme estava sendo rodado, a situação era completamente diferente. Por Tubarão, o tempo de produção foi estourado, o dinheiro também. As panes eletrônicas eram constantes, tornando tudo um pesadelo que um jovem Spielberg de 27 anos teve de cuidar. O estúdio que distribuiria o longa pediu a cabeça do diretor, que ficou a um ponto de ser guilhotinado. Mas vamos com calma, é muito informação!

Na década de 70, o Tubarão que se tentou filmar primeiramente era completamente diferente do que foi produzido. Nos roteiros originais, a criatura era bem mais presente e visível. Spielberg, ao assumir o projeto, o seu segundo na carreira tinha carta branca do estúdio, ninguém menos do que a Universal. Colocando suas mangas de fora, o diretor já começou contrariando todo mundo. Decidiu filmar em mar aberto, ao invés de um lago ou uma piscina. Ele argumentava que precisava de uma água violenta, e que passasse a devida emoção de não poder ser controlada. Em uma lagoa ou numa piscina, a emoção de ter um tubarão branco gigante perseguindo alguém não passaria credibilidade. Pois bem, Spileberg venceu e iniciou seu filme na costa americana de Massachussets, do lado do Oceano Atlântico. Restava agora que o principal personagem, o Tubarão, se fizesse presente nas cenas. Foi a partir deste momento que praticamente tudo começou a dar errado.

 

A equipe detinha três robôs mecânicos gigantes do tubarão para gravas as cenas. O apelido do tubarão era Bruce, em homenagem ao advogado de Spileberg, que até hoje defende o diretor em problemas jurídicos. Só que os três Bruces simplesmente não funcionavam por nada dentro da água salgada. É por causa de Tubarão que tornou-se tabu filmagens em oceano ou dentro da água, já que tudo pode dar errado. Dado que o filme tinha como principal elemento um Tubarão, o que fazer quando sua estrela não dá as caras? Mas não era só isso! A costa de Massachussets escolhida por Spielberg abrigava uma movimentada praia. Em determinadas tomadas, que deviam ser colocadas como em mar aberto, mesmo estando a uma boa distância da costa a equipe devia esperar. Já que era comum que outros navios e veleiros aparecessem e acabassem saindo nas filmagens, algo que não podia acontecer. Some tudo isso ao enjoo tradicional de se passar horas e mais horas dentro de um navio balançando no oceano e o ambiente começou a azedar de vez entre a equipe e o diretor.

Os dias passavam e os animatrônicos do Tubarão não funcionavam de forma alguma. E quando funcionava, era avariado de imediato. Foi nesse ponto que Spielberg deu uma parada e olhou para o roteiro do filme. O Tubarão original, como a Universal queria não seria possível de ser filmado, mas sim um outro tipo de Tubarão, o filme que hoje conhecemos. Ao final, Spilerberg pensou que não havia necessidade alguma de que o tubarão aparecesse a todo o momento na tela. Era possível passar a sensação de suspense e perigo apenas demonstrando uma presença. Para isso, o diretor contou com a ajuda de ninguém menos que John Williams, responsável pela composição sonora do filme. Vendo que teria de fazer limonada com os limões que a vida estava dando, Williams criou um som repetitivo que aumentava com a aproximação do grande tubarão. Essa trilha mais tarde tornou-se o símbolo do filme. Não por menos, a sensação de suspense dentro do filme foi tamanha que Williams foi parabenizado com nada menos do que um Óscar por causa de sua trilha sonora por Tubarão.

Essa mudança de tom exigiu tempo, algo que os estúdios detestam. Afinal, eles possuem um planejamento para seus lançamentos, e quando um atrasava, essa linha saía completamente do eixo. Tubarão foi um desses casos. Mesmo com a nova postura de que Bruce não aparecia tanto assim, havia ainda outros problemas. Spielberg tinha de filmar ainda mais cenas que apenas faziam sugestões do Tubarão, já que não tinha terminado seu longa. O calendário previsto de filmagens de apenas 55 dias triplicou, assim com o orçamento inicial de quatro milhões de dólares. Com tudo isso, a Universal já estava insatisfeita com os rumos que o filme estava dando, e são várias as tratativas para demitir o diretor durante a produção do filme. Literalmente, Spielberg esteve a um passo de ser devorado pelos tubarões dos estúdios da Universal. Contudo, ele graças a competência de sua equipe e de suas manobras, conseguiu terminar o seu longa.

Depois de todos os problemas, a Universal lança Tubarão no cinema e o sucesso é estrondoso. Para a felicidade do diretor, dos membros da equipe e do alto escalão da Universal é claro. Foi o primeiro filme a quebrar a barreira dos cem milhões de dólares somente nas bilheterias norte americanas. No Óscar, além de ganhar a estatueta de Melhor Som, levou o Melhor Edição e o de Melhor Banda Sonora. Só que tudo isso só foi possível dado a todos os problemas que Tubarão teve em sua execução. Segundo o roteiro original, o filme era tratado simplesmente como um filme de terror qualquer. Mas pela insinuação que de perigo, o filme ficou com uma cara Hitchcockiana. É bem provável que Tubarão jamais almejasse o sucesso que provocou mundo afora se todos esses problemas não existissem. Aliás, por ser uma produção tão problemática, existe até um documentário para assistir a essas soluções. Jaws, the Inside Story foi realizado em homenagem ao aniversário de 35 anos do filme. No fim das contas, tio Spielberg conseguiu fazer uma deliciosa limonada com alguns limões nem tão bons assim.

Fonte: Observador